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Growth & IA

Como preparar sua marca e produtos para serem recomendados pelas IAs

6 min de leitura

Por anos, o jogo de growth digital teve uma lógica clara: comprar cliques, mensurar conversão, otimizar custo de aquisição. Marca era topo de funil; performance era fundo. Quem dominava as duas operações em silos paralelos sobrevivia bem. Eu sei como esse jogo funcionava porque trabalhei com SEM no começo da minha carreira. E sei que mudou — porque a pesquisa em si mudou.

Até janeiro de 2026, o volume de buscas com mais de quatro termos cresceu 15 vezes. No AI Mode do Google, os usuários fazem buscas duas a três vezes mais longas que as tradicionais. A pesquisa virou conversa, e quem responde melhor ganha.

Há uma assimetria crescente entre pesquisa humana e pesquisa mediada por agentes. Humanos cansam, comparam três ou quatro opções, escolhem com base no que está mais visível. Agentes processam dezenas de fontes em segundos, ponderam reputação, cruzam termos de contrato, e devolvem uma recomendação.

Se um humano fosse comprar uma câmera digital, talvez visitasse cinco sites. O agente dele vai visitar mil vezes mais. Pode chegar a cinco mil sites.

Matthew Prince, CEO da Cloudflare, SXSW 2026

É mil vezes mais tráfego pra responder a mesma pergunta. Em 2024, pela primeira vez em uma década, máquinas passaram humanos: 51% do tráfego global da internet já é de bots, segundo o relatório anual da Imperva. A internet de hoje está sendo construída para máquinas, e é preciso preparar a estrutura de dados também para as máquinas.

Consumidores migram cada vez mais decisões para interface conversacional. Pesquisa recente da McKinsey aponta que instituições financeiras que dominaram a otimização pra esses modelos — disciplina nova chamada Generative Engine Optimization, ou GEO — viram crescimento de até seis vezes em tráfego orgânico não pago.

O próprio Google já reconheceu publicamente o que essa virada implica.

Brand e Performance nunca estiveram tão próximos.

Ana Beatriz Amorim, Google, no Congresso de Lifestyle do Ecommerce Brasil

É a forma educada de dizer algo mais incômodo: marca sem substância deixa de existir pra IA. E como cada vez mais clientes vão chegar à decisão de compra mediada por IA, marca sem substância deixa de existir, ponto.

A pergunta certa não é mais "minha marca tem reconhecimento?". É "minha marca tem material que uma IA consegue ler, atribuir e recomendar com confiança?". A recomendação prática do Google se organiza em três pilares: conteúdo proprietário denso, autoridade externa construída ativamente, e gestão ativa de reputação.

Pilar 1: Conteúdo proprietário estruturado

Modelos precisam de informação que explique o que sua empresa faz, pra quem, em que condições. Pra um banco ou fintech, isso significa páginas claras de produto com critérios objetivos de elegibilidade, faixas de preço transparentes, casos de uso explicados em linguagem comum. A Google reforça que conteúdo multimodal — vídeo, imagem, texto aprofundado — tem mais peso que textos curtos genéricos. É documentação utilizável, escrita pra responder perguntas reais de cliente.

Acionável: mapeie o conteúdo proprietário da sua marca e avalie pela ótica de utilidade pra IA. Páginas institucionais vagas não servem. Servem páginas que respondem diretamente "pra quem é isso", "quanto custa", "como funciona em três meses". Em formato multimodal quando possível.

Pilar 2: Autoridade externa verificável

Modelos de linguagem inferem confiança da rede de fontes que falam de uma marca. A Google recomenda investir em blogs, artigos de opinião, podcasts e webinars que posicionem a marca como autoridade. Reviews de clientes, colaborações com creators especializados e menções em veículos confiáveis viram combustível. Em setor financeiro especificamente, a marca que produz análise pública sobre seu próprio mercado tem vantagem dupla: aparece em mais resultados de IA e ganha credibilidade orgânica que mídia paga não compra.

Acionável: identifique três tipos de produção externa que sua marca pode sustentar com qualidade — não dez. Pode ser participação regular em podcasts de setor, um blog próprio com periodicidade, ou parcerias contínuas com creators relevantes. Volume importa menos que consistência e densidade.

Pilar 3: Gestão ativa de reputação

A Google literalmente cita Reclame Aqui e redes sociais como pontos a monitorar. Acompanhar o que está sendo dito sobre a marca em diversas plataformas deixou de ser função reativa de comunicação e virou prática essencial pra preservar visibilidade orgânica em IA.

Aqui está o ponto que ainda não foi internalizado pela maioria dos comitês de marketing: experiência do cliente virou alavanca de aquisição. A lógica é direta. Se o cliente reclama publicamente do seu banco, essa reclamação vira texto indexável. Se a IA é treinada nesse texto, ela aprende a associar sua marca a problemas específicos. Quando outro cliente potencial perguntar "qual o melhor banco pra X", o modelo pondera a reputação observada.

Isso reorganiza o cálculo de unit economics. Antes, um cliente mal-atendido custava o LTV perdido daquele cliente, mais boca-a-boca negativo numa rede pequena. Agora soma-se um terceiro custo: degradação de visibilidade orgânica em IA pra novos clientes potenciais. O CAC do próximo cliente sobe porque a experiência do anterior foi ruim.

E experiência ruim raramente começa no SAC. Começa no produto que não funciona como prometido, na jornada que tem atrito desnecessário, no processo interno que joga o problema do cliente de área em área. O SAC é onde o cliente chega depois que algo já falhou antes. Dimensionar bem o atendimento é necessário, mas tratar o sintoma sem mexer na causa só adia o problema — e na era da IA, adia visivelmente, porque cada interação ruim vira dado público que ensina o modelo o que sua marca representa.

Pra setor financeiro, isso é especialmente urgente. Bancos e fintechs estão entre as empresas mais reclamadas do país por construção: alta volumetria de transações, situações emocionalmente carregadas, jornadas regulatoriamente densas. O argumento de que "investir em experiência do cliente não tem ROI claro" perdeu validade. O ROI passou a estar em dois lugares ao mesmo tempo: na retenção do cliente atual e no posicionamento orgânico junto a modelos de IA.

Acionável: olhe pra experiência do cliente como sistema, não como função. SAC bem dimensionado importa, mas é a última camada. As camadas anteriores — produto, jornada, processo interno — são onde a maioria das reclamações públicas se origina. Em serviços financeiros, mapear as cinco causas mais frequentes de reclamação no Reclame Aqui e atacá-las na raiz é provavelmente o investimento de growth com maior retorno marginal nos próximos seis meses. E talvez o único cujo retorno aparece em duas linhas do P&L ao mesmo tempo.

A virada cultural

A mudança que isso exige é cultural, não tática. Empresas acostumadas a comprar cliques tinham um luxo: o canal de aquisição era separado do canal de relacionamento. Você podia ter mídia paga ótima e atendimento medíocre, e a matemática fechava no curto prazo.

Esse divórcio acabou. Marca, performance, conteúdo e atendimento viraram quatro faces de uma mesma alavanca: o quanto sua empresa é compreendida, citada e recomendada por modelos de linguagem que cada vez mais mediam a decisão de compra. Pra setor financeiro, onde a confiança é o produto e a reputação é parte do que se vende, esse alinhamento é a infraestrutura digital finalmente refletindo o que sempre foi verdade.

Preparar marca e produtos pra serem recomendados pelas IAs é o novo trabalho de quem cuida de growth, marca e relacionamento ao mesmo tempo.